O Mineiro e o queijo

Cinema
Crítica: O mineiro e o queijo, de Helvécio Ratton Compartilhar
Miguel Pereira – Professor da PUC-Rio e crítico de cinema escreve ao Portal RCR/ signis Brasil sobre o filme brasileiro O mineiro e o queijo, de Helvécio Ratton

 

O mineiro e o queijo, de Helvécio Ratton

Uma cultura que resiste


             Dentre os traços culturais de Minas Gerais, um dos mais fortes, sem dúvida, é o seu queijo típico. É uma cultura de mais de 300 anos. Por mais que tenha sido rebatizado nos mercados do País por “Frescal” e outras denominações, o Queijo Minas resiste, apesar de ser considerado contrabando fora do seu estado de origem, isto é, não pode ser vendido no resto do Brasil na sua versão artesanal.

Este absurdo é uma das facetas apresentadas pelo filme O mineiro e o queijo, de Helvécio Ratton, ainda em cartaz, resistindo, numa única sessão, sempre cheia e aplaudida ao final. Pelos menos foi essa a experiência que tive ao assisti-lo. O documentário, no entanto, vai muito além dessa denúncia. É um convite à degustação física e espiritual.

Sai-se com vontade de experimentar um gosto talvez já esquecido ou ainda não vivenciado, tal a simpatia e encanto com que o filme apresenta seus personagens e produtos. Por outro lado, o documentário evoca um tipo de vida que parece não mais existir na face da terra. Esse mundo rural, quase intacto nas suas paisagens e regimes de ser, nos é mostrado com a sua verdade e também com a sua poesia. Coisa rara no cinema contemporâneo. Esse mérito é do seu realizador, Helvécio Ratton, um mineiro intrínseco. Lembra outro cineasta mineiro profundo e histórico, o nosso pioneiro Humberto Mauro que, mesmo fazendo cinema no Rio de Janeiro, por tantos anos, nunca deixou aportar em seus filmes traços de sua mineirice atávica.

            Ratton não apenas cita o seu conterrâneo em vários momentos do filme, como constrói um relato que coloca em evidência valores que se aproximam aos sotaques, prosódias e convenções familiares do cinema maureano, principalmente o realizado no Instituto Nacional do Cinema Educativo, durante várias décadas. Aliás, essa obra é, seguramente, um conjunto dos mais admiráveis do nosso cinema.  A narrativa de Ratton conjuga diferentes aspectos da vida cotidiana, propondo uma imersão nesse tipo de cultura econômica e existencial, para ressaltar a felicidade e a integração que ela representa no ambiente de preservação ecológica do nosso planeta.

Certas falas dos personagens atuam como uma espécie de confirmação de que uma outra vida é possível, mesmo que pressionada por toda a tecnologia contemporânea. Os produtores dos queijos artesanais de Minas Gerais, alguns espantados e não entendendo bem as modernidades dos dias que correm, conseguem conviver em harmonia com os próximos, suas famílias e o meio ambiente que os cerca de poesia. Transformam o ato comum, num ato vital e belo, digno da nossa admiração e adesão afetiva.

            O mineiro e o queijo, de Helvécio Ratton, é um documentário que inova na sua forma simples e verdadeira de nos contar histórias e nos revelar um outro modo de ser que a pressa, a mobilidade e a neurose da vida urbana não nos deixa ver e nem apreciar com gosto e desejo de experimentar.

 

Miguel Pereira – Professor da PUC-Rio e crítico de cinema             

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