Papa Bergoglio: tolerância zero com os padres pedófilos

A formação dos sacerdotes é uma das preocupações que Jorge Bergoglio sempre manifestou, desde que era arcebispo e superior na Companhia de Jesus. Sobre este tema, ele teve uma conversa com o rabino Abraham Skorka, reitor do Seminário Rabínico Latino-Americano, publicada no livro "Sobre o céu e a terra" (Editora Sudamericana, 2012).

 

Apresentamos, a seguir, um trecho deste diálogo, no qual o próprio Bergoglio revela o segredo para viver um celibato feliz.

 

Bergoglio: quando eu era seminarista, uma moça me encantou; eu a conheci no casamento do meu tio. Surpreendeu-me sua beleza, sua luz intelectual... Bom, fiquei atordoado por um tempo, pensava muito nisso. Quando voltei ao seminário depois do casamento, não consegui rezar durante uma semana inteira porque, quando eu ia rezar, aparecia a imagem da garota na minha cabeça. Tive de voltar a pensar no que fazer. Eu ainda era livre, porque era seminarista, podia voltar para casa e "tchau". Tive de pensar na minha opção novamente, Então, voltei a escolher – ou deixar-me ser escolhido – o caminho religioso. Seria anormal que não acontecesse este tipo de coisa. Mas quando isso acontece, a pessoa tem que voltar a se situar. Tem que analisar se volta a escolher o mesmo ou se diz: "Não, isso que estou sentindo é muito bonito; tenho medo de não ser fiel ao meu compromisso; então vou largar o seminário". Quando algum seminarista pensa assim, eu o ajudo a ir embora em paz, a ser um bom cristão – e não um mau sacerdote.

 

Na Igreja ocidental, à qual pertenço, os padres não podem se casar, como na Igreja Católica bizantina, ucraniana, russa ou grega. Nelas, os padres podem se casar; já os bispos não: eles têm de ser celibatários. Eles são excelentes sacerdotes. Às vezes eu brinco com eles, dizendo que eles têm mulher em casa, mas que não perceberam que também compraram uma sogra. No catolicismo ocidental, o tema é discutido especialmente por incentivo de algumas organizações. Mas a disciplina do celibato continua firme. Alguns dizem, com certo pragmatismo, que estamos perdendo mão de obra. Se, hipoteticamente, o catolicismo ocidental revisasse o tema do celibato, acho que o faria por razões culturais (como no Oriente), não tanto como opção universal.

 

Até agora, sou a favor da manutenção do celibato, com os prós e contras que ele tem, porque são dez séculos de boas experiências, mais que de falhas. O que acontece é que os escândalos são imediatamente conhecidos. Mas a tradição tem peso e validez. Os ministros católicos foram escolhendo o celibato pouco a pouco. Até 1100, havia quem optasse por ele e quem não queria. Depois, no Oriente se seguiu a tradição não celibatária, como opção pessoal, e no Ocidente se fez o contrário. É uma questão de disciplina, não de fé. É algo que pode mudar. Mas pessoalmente, nunca passou pela minha cabeça a ideia de me casar. Mas há casos. Veja, por exemplo, o presidente paraguaio Fernando Lugo: é uma pessoa brilhante, mas, sendo bispo, teve uma queda e renunciou à diocese. Nesta decisão, ele foi honesto. Às vezes, aparecem padres que caem nisso.

 

Skorka: E qual é a sua postura?

 

Bergoglio: Se um deles chega e me diz que engravidou uma mulher, eu o escuto, procuro fazer que fique em paz e, pouco a pouco, tento fazer com que ele perceba que o direito natural é anterior ao seu direito como padre. Portanto, ele tem que deixar o ministério e se encarregar desse filho, ainda que decida não se casar com essa mulher. Porque, assim como essa criança tem direito de ter uma mãe, tem direito de ter o rosto de um pai também. Eu me comprometo a arrumar todos os papéis desse padre em Roma, mas ele deve deixar tudo. Agora, se um padre me diz que se entusiasmou, que teve uma queda, eu o ajudo a se corrigir. Há padres que se corrigem e outros, não. Alguns, infelizmente, nem contam isso para o bispo.

 

Skorka: O que significa que se corrijam?

 

Bergoglio: Que façam penitência, que guardem seu celibato. A vida dupla não faz bem, não gosto disso, porque significa substanciar a falsidade. Às vezes, eu lhes digo: "Se você não consegue carregar isso, decida-se".

 

Skorka: Eu gostaria de esclarecer que uma coisa é o padre que se apaixonou por uma mulher e se confessou; e outra, muito diferente, são os casos de pedofilia. Isso é preciso cortar pela raiz, é muito grave. Se dois adultos têm um caso, isso é muito diferente.

 

Bergoglio: Sim. Mas que se corrijam. Que o celibato traga como consequência a pedofilia está descartado. Mais de 70% dos casos de pedofilia acontecem dentro do contexto familiar e entre conhecidos: avôs, tios, padrastos, vizinhos. O problema não está no celibato. Se um padre é pedófilo, é porque já era antes de virar padre.

 

Agora, quando isso acontece, nunca podemos fazer vista grossa. Não se pode estar dentro de uma posição de poder e destruir a vida de outra pessoa. Na diocese nunca me aconteceu, mas uma vez um bispo me ligou para me perguntar o que fazer em uma situação assim; eu lhe disse para tirar as licenças, que não permitisse que esse padre exercesse mais o sacerdócio, e que começasse um julgamento canônico no tribunal correspondente a essa diocese. Para mim, esta é a atitude a tomar. Não acredito nas posições que procuram sustentar certo espírito corporativo para evitar prejudicar a imagem da instituição. Acho que esta solução foi proposta uma vez nos Estados Unidos: trocar os padres de paróquia. Isso é uma estupidez porque, dessa maneira, o padre leva o problema na mala. A reação corporativa leva a esta consequência e é por isso que eu não concordo com estas saídas. Recentemente, na Irlanda, foram descobertos casos que tinham uns vinte anos, e o Papa atual disse: tolerância zero com este crime. Admiro a valentia e a retidão de Bento XVI neste assunto.

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