Uma verdadeira medalhista de ouro na Diocese de Campo Limpo

Neide Santos Silva é uma mulher de corpo pequeno e franzino, mas de grandes atitudes que mudaram sua vida e a vida daqueles que estão em seu caminho.  Tudo começou quando, com 14 anos, foi participar de um campeonato de escolas no Clube Joerg Bruder em Santo Amaro. Ao chegar foi logo escolhida pelo seu professor de educação física para cobrir a falta de uma garota no revezamento 4 x100m. Neide explica que a escolha foi feita por ela ser muito magra e "fácil de se levar ao vento". Naquele dia ganhou sua primeira medalha e se apaixonou pelo esporte e pela competição. Mas aos 16 anos, surgiu o primeiro desafio: abandonar seu sonho olímpico. Sua mãe biológica, que a havia abandonado quando tinha seis anos se aproximou e com isso surgiu a necessidade de ajudá-la a criar os irmãos mais novos. O atletismo foi deixado de lado.

Aos 17 anos se casou e, na década de 80, seu marido foi assassinado por um policial militar pelo simples fato de ser negro. Ela lembra que esta foi uma época onde muitos negros foram assassinados covardemente na região do Capão Redondo.

O tempo passou e em 1999 ela trabalhava com as mulheres da comunidade, porque elas a viam correr e desejaram começar a praticar a atividade. Nesta época, Mark, seu filho de 19 anos do seu primeiro casamento, pedia para que ela ajudasse também com as crianças da comunidade. Ela sempre respondia que não tinha tempo para mais este projeto, pois já trabalhava e as mulheres treinavam no tempo que tinham, ou seja, bem cedo antes da rotina do dia a dia.

Em setembro de 2000, seu filho saiu e não voltou para casa. Assim como o seu primeiro marido, seu filho fora assaltado e assassinado por um adolescente de 14 anos. Foi uma época de intenso sofrimento onde Neide chegou a questionar para Deus porque Ele não estava olhando por ela, deixando-a seguir por dias tão difíceis. Entre tantos questionamentos, um se repetia com maior frequência em sua cabeça: "se eu tivesse atendido o pedido do meu filho, teria sido diferente?"

Para encontrar a paz e voltar a viver, Neide decidiu pedir perdão a Deus, perdão por achar que Ele havia tirado seu filho e por achar que Ele não estava do seu lado. Em todos estes anos, não teve um dia que Neide não se lembrasse do seu filho. E pela memória dele que Neide resolveu atender o seu pedido e começou a treinar crianças da comunidade.

Trabalhando com estas crianças, Neide encontrou a sua razão de viver. Ela considera que achou a "felicidade terrena" e a sua missão, e afirma com emoção, que "a comunidade que tirou o seu filho lhe deu de volta centenas e centenas de filhos", pois no seu projeto -  Vida Corrida - com estas crianças tudo é movido pelo amor.

Neide considera que tudo isto é obra da misericórdia de Deus, porque antes de perder seu filho e começar o projeto ela até gostava dos filhos dos outros, mas ainda não conhecia na verdade o que era o "amar ao próximo" tão pedido por Jesus. E foi perdendo o seu filho e ela pode entender este chamado do Senhor. "Cada criança ali é única e eu daria a minha vida para protegê-las, como uma leoa", afirma. Em dezessete anos de projeto, nunca nenhuma criança se perdeu, se machucou em nenhum dos eventos que elas participam.

E como reconhecimento pelo trabalho realizado com estas crianças Neide foi convidada para conduzir a tocha olímpica em São Paulo. Foi solicitado pela organização do evento que fossem convidadas mulheres que realizassem um trabalho interessante com o esporte. E como  este projeto já era conhecido internacionalmente porque a BBC de Londres esteve por aqui para realizar um documentário sobre "heróis sem capa" que ajudam e mudam o mundo das pessoas, além do Prêmio da Revista Claudia que está em andamento,  surgiu então o convite.

No dia do revezamento todos amigos, parceiros e patrocinadores estavam ali para viver com ela este grande momento. Quando ela chegou perto do local onde faria o percurso ela encontrou uma multidão de pessoas, além de suas crianças, tirando fotos, soltando fogos de artifício, uma emoção! Ela aproveitou o momento para festejar com todo mundo que ali estava em plena euforia. "O Espírito Olímpico estava presente ali unindo as pessoas sem distinção de raça, cor ou credo, apenas humanos estavam ali e felizes."

Tudo isso representou um sonho realizado de uma menina de quatorze anos que se apaixonou pelo esporte por receber um bastão de revezamento e que nunca imaginou que anos mais tarde, pelo esporte, receberia e conduziria a tocha olímpica. Foi como conquistar uma medalha olímpica. Quando questionada sobre o que ela diria para aquela garota de quatorze anos que correu pela primeira vez, Neide responde sem pestanejar: "Acredite nos seus sonhos e um dia você vai ser feliz. A sua hora irá chegar!"e completa: "se eu não acreditasse, se eu não fizesse de minha fé algo inabalável, hoje eu não estaria aqui. Me maltrataram, me humilharam, me estupraram, me violentaram de todas as formas. Quantas vezes, nestas situações, me disseram que Deus não existe. Muitas vezes me disseram que eu estava sozinha, que eu não tinha nem pai, nem mãe. Mas eu tinha que acreditar. Eu só estou aqui contando a minha história, pela minha fé."

Para quem tem o interesse de conhecer um pouco mais sobre o projeto de Neide, basta todas as manhãs se dirigir ao Santo Dias e buscar informações de como participar.

Texto: Lia Macedo 

Fotos: João Valério

Pascom Paróquia Nossa Senhora do Carmo

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